DE POSADAS A SAENZ PEÑA (ARG) – (449 km rodados no dia) - 2600 km de Brasília, dos quais 760 km em território argentino –
Quero começar esta mensagem de hoje com um louvor especial ao povo do interior da Argentina. Eles transbordam simpatia, cordialidade e não perdem uma única chance de cumprimentar, de dar tchauzinho na estrada, piscar farol e de nos perguntar tudo sobre nossa viagem. Hoje acordamos às 5:30 h da manhã, sob um frio danado. Algo em torno de 14 graus. Deixamos Posadas por volta das 6h30min e rumamos para Corrientes. As longas retas e o asfalto impecável são inspiração para um festival de bocejos. Logo na entrada de Corrientes a polícia camiñera nos parou e inventou aquela estória que nós estávamos correndo muito etc e tal. Morremos em 60 dólares para poder seguir viagem (pagamento espontâneo de infração). Esse posto policial já está ficando famoso por sua especialização em extorquir motociclistas. Acabara de ler um relato publicado pela revista Moto Adventure do mês passado falando desta cambada. De qualquer forma, depois desse prejuízo, resolvemos parar em Corrientes, à beira do rio Paraná em seu trecho mais caudaloso, para dar uma descansada e tirar umas fotos. Uma ponte maravilhosa (Ponte General Manuel Belgrano) cobre o rio e, do outro lado, a cidade de Resistencia, capital da província do Chaco. Depois de 40 minutos de bobeira, lá fomos nós, retomando a rotina da viagem. O Chaco tem fama de ser um lugar quente pra burro. No relato mais bacana que li (do Rodrigo Moraes, de Campinas), outros viajantes chegaram a experimentar temperaturas de 55 graus no verão. Causou-nos surpresa trafegar pela metade da região sob temperatura entre 15 e 18 graus, um frio razoável para quem está em cima de uma moto. É a primavera! Tudo está fresquinho por aqui!
Dia 15 de outubro de 2007 - segunda-feira
DE SAENZ PEÑNA A SAN SALVADOR DE JUJUY - (830 km rodados no dia) - 3430 km de Brasília e 1590 km dentro da Argentina.
Saimos cedo de S. Peña em direção a S. Salvador de Jujuy. Pegamos dois desvios por estrada de terra, que totalizaram 16 km, por conta de obras na rodovia principal. Por aqui eles recuperam a pista trocando todo o asfalto. Nada de operações tapa-buracos. Desde que entramos no território argentino foi o único trecho em que o pista não estava 100%. Alguns trechos remendados, mas pouquíssimos buracos. Nada que cause preocupação a quem está acostumado com as rodovias brasileiras. Os postos de gasolina começam a rarear por essas bandas. Mesmo com tanques de 22,5 litros em nossas motos, resolvemos não arriscar. Paramos para abastecer em todos os postos pelo caminho, independentemente da quilometragem rodada. Chegamos em Jujuy e nos hospedamos no hotel Augustus, de 3 estrelas. Resolvemos ficar dois dias na cidade para descansar um pouco antes de iniciar a subida da Cordilheira dos Andes. Estamos em uma cidade histórica belíssima, cujo maior patrimönio é a catedral fundada em 1606. A vida noturna, como em toda a Argentina, é bastante agitada. A comida por aqui é maravilhosa e a cerveja (quilmes) é servida bem mais gelada que no Brasil. Nota 10! Aqui existe o hábito salutar de se fazer a sesta e, por conta disso, quase todo o comércio fecha entre 13 e 16 h. Jujuy é a cidade natal do meu ex-professor e orientador de Antropologia da UnB, Martin Novión (já falecido). Vou fazer algumas observaçöes para adiantar:
a) Sobre nossa viagem até aqui - o cenário foi muito repetitivo desde que cruzamos a fronteira. Uma planície extensa de altitude entre 230 e 270 m (medida pelo GPS). Não pegamos chuva pelo caminho e a temperatura tem oscilado bastante, entre 8 e 38 graus.
b) Chaco Argentino – Prevíamos um calor danado neste trecho. Fomos surpreendidos por uma temperatura de 19 graus e sensação térmica de 12 graus no município de Pampa del Inferno (que tem esse nome por causa do calor). Pensé acá com mis botones: “Se no Inferno está fazendo 12 graus, como estará o tempo nas alturas?” À medida que avançávamos para o umbigo do Chaco, a temperatura subiu para 38 graus à sombra (40% de umidade), em Taco Pozo, onde paramos para almoçar.
Dia 16 de outubro de 2007 - terça-feira
Parados em S. Salvador de Jujuy - Hoje cumprimos a primeira semana de viagem desde Brasília e o quarto dia em território argentino. Ainda pela manhã deixei minha moto na Jujuy Motos para fazer a revisão dos 20 mil km, embora ela esteja com 18.800 rodados. Pensei que seria legal ter um carimbo no documento da moto com o nome desta cidade tão especial (depois descobri que os funcionários desta concessionária roubaram as ferramentas originais de minha moto que ficavam guardadas sob o banco, um prejuízo em torno de 200 dólares). Passeamos a pé e de táxi pelos arredores. Muitas fotos na Plaza Belgrano, onde se localizam os prédios históricos mais bem conservados da cidade, dentre eles a Cadetral de Jujuy. Fomos ao Mercado Municipal, onde se vende imensa variedade de frutas, legumes e verduras. Compramos 3 saquinhos de folhas de coca para mascar nos trechos mais altos. Parece ser a única maneira de se evitar o Mal de Puna (efeitos perversos das grandes altitudes). Uma nativa (indígena) nos ensinou a mascar adequadamente as folhas (hacer el acuyico), para evitar danos à dentição.
À noite, jantamos num restaurante da Calle Belgrano: carne argentina regada com vinho de Mendoza. O grupo musical de Bruno Árias (artista local) fez o som ambiente, com muito charango, sampoña e um vocal afinadíssimo. Entre uma música e outra havia ovação calorosa dos frequentadores, com muitos gritos e assobios. Bastou a Rosane dar um gritinho de "Ru-Rui" ao final de uma música para que todos a acompanhassem . De repente, o restaurante era uma festa, com todos gritando "Ru-Rui" pra lá, 'Ru-Rui" pra cá. Uma animação daquelas. Lembro que a pronúncia espanhola do nome da cidade (Jujuy) é Ru-Rui. Acho que Rosane seria uma excelente animadora de festas... se tivesse chance. (Fotos da Catedral de Jujuy , de 1606, e da Igreja S. Antonio)






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