14 de nov de 2007

Dia 14 de outubro de 2007 - domingo
DE POSADAS A SAENZ PEÑA (ARG) – (449 km rodados no dia) - 2600 km de Brasília, dos quais 760 km em território argentino
Quero começar esta mensagem de hoje com um louvor especial ao povo do interior da Argentina. Eles transbordam simpatia, cordialidade e não perdem uma única chance de cumprimentar, de dar tchauzinho na estrada, piscar farol e de nos perguntar tudo sobre nossa viagem. Hoje acordamos às 5h30 da manhã, sob um frio danado. Algo em torno de 14 graus. Deixamos Posadas por volta das 6h30 e rumamos para Corrientes. As longas retas e o asfalto impecável são inspiração para um festival de bocejos. Logo na entrada de Corrientes a polícia camiñera nos parou e inventou aquela estória que nós estávamos correndo muito etc e tal. Morremos em 60 dólares para poder seguir viagem (pagamento espontâneo de infração). Esse posto policial já está ficando famoso por sua especialização em extorquir motociclistas. Acabara de ler um relato publicado pela revista Moto Adventure do mês passado falando desta cambada. De qualquer forma, depois desse prejuízo, resolvemos parar em Corrientes, à beira do rio Paraná em seu trecho mais caudaloso, para dar uma descansada e tirar umas fotos. Uma ponte maravilhosa (Ponte General Manuel Belgrano) cobre o rio e, do outro lado, a cidade de Resistencia, capital da província do Chaco. Depois de 40 minutos de bobeira, lá fomos nós, retomando a rotina da viagem. O Chaco tem fama de ser um lugar quente pra burro. No relato mais bacana que li (do Rodrigo Moraes, de Campinas), outros viajantes chegaram a experimentar temperaturas de 55 graus no verão. Causou-nos surpresa trafegar pela metade da região sob temperatura entre 15 e 18 graus, um frio razoável para quem está em cima de uma moto. É a primavera! Tudo está fresquinho por aqui!
A temperatura começou a esquentar a partir de Pampa de los Guanacos, superando os 38 graus. Foi nesta cidade que presenciamos uma briga conjugal de extrema violência. Imaginem a cena: havia um hotel de estrada grudado no posto e um ônibus de turismo estacionado ao lado. De repente, surge por detrás do ônibus um jovem casal totalmente embriagado trocando sopapos e gritos. Mal podiam andar, tamanho porre. O homem, bem mais bêbado que a mulher, acabou levando a pior. Ela o jogou no chão, sentou-se por sobre seu peito, pegou-o pelos cabelos e começou a bater insistentemente sua cabeça no asfalto com muita força. Várias pessoas assistiam a briga totalmente inertes, apreciando aquela cena triste. Cheguei a pedir a intervenção de dois senhores que estavam ao lado, que responderam: "Quiero que morra". As pancadas da cabeça do rapaz contra o chão eram violentas. Não tinha dúvidas de que ele morreria se a mulher continuasse. Rosane tomou a iniciativa e segurou a mulher, falando com ela com muita calma e paciência em portunhol, e parece ter sido compreendida. A moça acalmou-se e se afastou do rapaz, que continuou no chão desacordado. Vez por outra ele dava um tremelique e gemia de dor. Acho que eram convulsões. A mulher, com a maquiagem borrada e muitas lágrimas no rosto, mal conseguia ficar de pé, completamente bêbada. Resolvemos sair do local o mais rápido possivel. Subimos nas motos e caimos fora, deixando o casal sob tutela dos olhares de alguns curiosos que permaneceram por lá.
Chegamos a Saenz Peña por volta das 13h20 e fizemos a primeira refeição normal desde que saimos de Brasilia, no dia 10. Comemos uma farta parillada a preço de R$ 14 por pessoa. Comidinha boa e barata! Ficamos hospedados no hotel Astúria, outra espelunca, mas não havia melhores opções por lá. Estava acontecendo uma festa na cidade, em comemoração ao Dia de la Raza. A praça central de S. Peña ficou repleta de transeuntes até altas horas da noite. Muitas crianças brincando e correndo. Música regional tocada em alto-falantes. Um ambiente delicioso! Ficamos sentados em um barzinho estilo parisiense bem em frente à praça, curtindo o movimento e tomando cerveja Quilmes com amendoim torrado. Amanhã vamos tentar chegar a S. Salvador de Jujuy, capital da província de Jujuy, a mais de 800 km daqui. (Fotos em Corrientes, no rio Paraná, e em um barzinho de Saenz Peña)
Dia 15 de outubro de 2007 - segunda-feira
DE SAENZ PEÑNA A SAN SALVADOR DE JUJUY - (830 km rodados no dia) - 3430 km de Brasília e 1590 km dentro da Argentina.
Saimos cedo de S. Peña em direção a S. Salvador de Jujuy. Pegamos dois desvios por estrada de terra, que totalizaram 16 km, por conta de obras na rodovia principal. Por aqui eles recuperam a pista trocando todo o asfalto. Nada de operações tapa-buracos. Desde que entramos no território argentino foi o único trecho em que o pista não estava 100%. Alguns trechos remendados, mas pouquíssimos buracos. Nada que cause preocupação a quem está acostumado com as rodovias brasileiras. Os postos de gasolina começam a rarear por essas bandas. Mesmo com tanques de 22,5 litros em nossas motos, resolvemos não arriscar. Paramos para abastecer em todos os postos pelo caminho, independentemente da quilometragem rodada. Chegamos em Jujuy e nos hospedamos no hotel Augustus, de 3 estrelas. Resolvemos ficar dois dias na cidade para descansar um pouco antes de iniciar a subida da Cordilheira dos Andes. Estamos em uma cidade histórica belíssima, cujo maior patrimönio é a catedral fundada em 1606. A vida noturna, como em toda a Argentina, é bastante agitada. A comida por aqui é maravilhosa e a cerveja (quilmes) é servida bem mais gelada que no Brasil. Nota 10! Aqui existe o hábito salutar de se fazer a sesta e, por conta disso, quase todo o comércio fecha entre 13 e 16 h. Jujuy é a cidade natal do meu ex-professor e orientador de Antropologia da UnB, Martin Novión (já falecido). Vou fazer algumas observaçöes para adiantar:
a) Sobre nossa viagem até aqui - o cenário foi muito repetitivo desde que cruzamos a fronteira. Uma planície extensa de altitude entre 230 e 270 m (medida pelo GPS). Não pegamos chuva pelo caminho e a temperatura tem oscilado bastante, entre 8 e 38 graus.
b) Chaco Argentino – Prevíamos um calor danado neste trecho. Fomos surpreendidos por uma temperatura de 19 graus e sensação térmica de 12 graus no município de Pampa del Inferno (que tem esse nome por causa do calor). Pensé acá com mis botones: “Se no Inferno está fazendo 12 graus, como estará o tempo nas alturas?” À medida que avançávamos para o umbigo do Chaco, a temperatura subiu para 38 graus à sombra (40% de umidade), em Taco Pozo, onde paramos para almoçar.
c) Características do povo chaquenho – A partir de Saenz Peña, o traços da população mudam radicalmente. Predomina o tipo indígena: moreno, cabelo preto e liso e alguns meio atarracados. Apesar de comerem basicamente carne gordurosa e batatas, não se vê pessoas acima do peso por aqui. Impressiona a tranquilidade, a cordialidade e simpatia do povo em todos os locais por onde passamos.

d) Gasolina argentina – experimentamos 3 tipos de gasolina por aqui: a Fangio XXI (97 octanas, considerada a melhor), a Super XXI e a da Petrobrás argentina. Minha moto só teve consumo parecido com o do Brasil com a Super XXI (93 octanas), que custa a bagatela de R$ 1.34/litro (considerando o câmbio de 1 peso/R$ 0,67).

e) Cuidado para não errar o caminho!!! exatamente 30 km após Saenz Peña há um entroncamento. A impressão que dá é que estamos seguindo uma reta imensa, mas existe uma entrada À DIREITA e é POR ALI O CAMINHO correto. Se seguir em linha reta vai dar em Mendoza. Há uma placa enorme logo no encontro das duas pistas com vários nomes de cidades. O último nome. lá embaixo da placa, é P. Inferno (que significa Pampa del Inferno) e é para lá que se deve ir para chegar ao Atacama. 
(Fotos na Calle Belgrano, na estrada e no desvio da rodovia)


Dia 16 de outubro de 2007 - terça-feira
Parados em S. Salvador de Jujuy - Hoje cumprimos a primeira semana de viagem desde Brasília e o quarto dia em território argentino. Ainda pela manhã deixei minha moto na Jujuy Motos para fazer a revisão dos 20 mil km, embora ela esteja com 18.800 rodados. Pensei que seria legal ter um carimbo no documento da moto com o nome desta cidade tão especial (depois descobri que os funcionários desta concessionária roubaram as ferramentas originais de minha moto que ficavam guardadas sob o banco, um prejuízo em torno de 200 dólares). Passeamos a pé e de táxi pelos arredores. Muitas fotos na Plaza Belgrano, onde se localizam os prédios históricos mais bem conservados da cidade, dentre eles a Cadetral de Jujuy. Fomos ao Mercado Municipal, onde se vende imensa variedade de frutas, legumes e verduras. Compramos 3 saquinhos de folhas de coca para mascar nos trechos mais altos. Parece ser a única maneira de se evitar o Mal de Puna (efeitos perversos das grandes altitudes). Uma nativa (indígena) nos ensinou a mascar adequadamente as folhas (hacer el acuyico), para evitar danos à dentição.
À noite, jantamos num restaurante da Calle Belgrano: carne argentina regada com vinho de Mendoza. O grupo musical de Bruno Árias (artista local) fez o som ambiente, com muito charango, zampoña e um vocal afinadíssimo. Entre uma música e outra havia ovação calorosa dos frequentadores, com muitos gritos e assobios. Bastou a Rosane dar um gritinho de "Ru-Rui" ao final de uma música para que todos a acompanhassem . De repente, o restaurante era uma festa, com todos gritando "Ru-Rui" pra lá, 'Ru-Rui" pra cá. Uma animação daquelas. Lembro que a pronúncia espanhola do nome da cidade (Jujuy) é Ru-Rui. Acho que Rosane seria uma excelente animadora de festas... se tivesse chance. (Fotos da Catedral de Jujuy , de 1606, e da Igreja S. Antonio)


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Quem sou eu

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Sou servidor do Ministério do Planejamento, motociclista há algumas décadas e membro do motoclube Águia Solitária, em Brasília. Também sou antropólogo e sociólogo por formação; escritor, violeiro e compositor por vocação; e estradeiro por opção. Criei esse blog para compartilhar, com quem demonstre interesse, minhas viagens de moto pelo Brasil e por outros países. Contato pelo email: flaviomcas@gmail.com