12 de nov de 2007

DIA 18 de outubro de 2007 - quinta-feira
DE SUSQUES A SAN PEDRO DO ATACAMA (280 km rodados no dia) - 3910 km rodados desde Brasília, dos quais 2010 km na Argentina e 160 km no Chile – Saímos depois das 9 h de Susques, esperando o tempo esquentar um pouco. Ainda fazia muito frio pela manhã. Adentramos o Chile por Paso de Jama, onde fica a aduana argentina. Rosane viu uma lhama enorme no meio do nada e a chamou: - Vem cá, lindinha, vem!... Não é que ela veio? Chegou tão perto da máquina fotográfica que o focinho quase encostou na lente. Que bichinho curioso e meigo! Ficamos emocionados com esse contato tão próximo.
No Chile, o tempo estava ainda mais frio. Chegamos aos 4814 m de altitude logo que passamos da divisa com a Argentina. Paramos para tirar a tradicional foto da placa de fronteira e, alguns quilômetros depois, estacionamos num mirante de pedra que permitia ver a vastidão do altiplano. Ficamos admirados com a beleza de um córrego bastante azul, circundado por gramíneas de coloração amarela clara, formado pelo degelo dos Andes.. Vimos montes nevados ao longe. Passamos por um salar muito branco logo em seguida, mas não registramos o nome. A rodovia chilena é excelente e muito bem sinalizada. Nos trechos de descida íngreme, existem caixas de brita nas laterais da pista para caminhões que não conseguem frear. A inclinação da pista não é brincadeira! Se embalar demais não há como parar mesmo!
Chegamos em S. Pedro depois de descer 2400 m abruptamente num intervalo de apenas 40 km. Saimos dos 4700 m e fomos para 2300 m em menos de 20 minutos. Um mergulho belíssimo na paisagem árida do Atacama. A cidade é precária, com preços abusivos (muito mais que o dobro da Argentina), ruas de terra e areia, repleta de turistas de todo canto. Um formigueiro de gente! Só conseguimos quarto com banheiro na sexta tentativa de encontrar um hotel de bom preço (eufemismo). O local, porém, vale o preço! Acho que se trata de cenário único nesse planeta tão diversificado. Vamos lá a outros detalhes:
a) Aduana - ao sair da Argentina, pelo Paso de Jama, tivemos que mostrar os documentos pessoais e das motos por 3 vezes num espaço de 15 metros. Uma burocracia de fazer inveja ao Brasil antes do Hélio Belträo. Adentramos o Chile sob 4 graus de temperatura. Montes nevados ladeiam a pista. Convivemos o tempo todo com um ventinho sem-vergonha balançando as motos. A Aduana Chilena fica em S. Pedro, a 160 km da fronteira argentina. Aqui a coisa foi pior do que por lá. Depois de passar por dois guichês super demorados, tivemos que desmontar toda a bagagem das motos para vistoria da vigilância sanitária. Cheguei a pensar que iríamos passar a primeira noite por lá, tamanha a demora. Para piorar, quando recolocava as tralhas na moto, ao puxar a redinha de elástico para prender a bagagem, joguei a moto no chão. Moto parada é um perigo, cai à toa!
b) Em S. Pedro - fomos almoçar depois das 17 h e encontramos com outros dois brasileiros motociclistas de Curitiba (Rafael, numa XT600, e Reginaldo Rohden, numa Sahara), que estavam iniciando o caminho de volta pela Bolívia. Pessoas super atenciosas e amigas. Enquanto conversávamos, descobrimos que o pneu dianteiro da moto do Paulo estava furado. Fomos a dois borracheiros e ninguém por aqui possui a chave para tirar a roda da moto. Injetamos o reparador de pneus, que funcionou muito bem.
(Fotos da lhama em Paso de Jama, na rodovia chilena e da igreja de S.Pedro do Atacama)


DIA 19 de outubro de 2007 - sexta-feira
Em S. Pedro do Atacama - Hoje fizemos um super passeio de mais de 200 km pelos arredores do Atacama. Contratamos o serviço de uma agência de turismo ao preço de 72 dólares por cabeça (considerado barato por aqui). Estivemos nos povoados de Socaire e Toconao, no Salar do Atacama, nas Lagoas Miscanti e Miñiques e vimos o Vulcäo Láscar (ativo desde 1993). Saímos às 8 h e retornamos por volta das 16 h. A paisagem é uma coisa de louco! Inimaginável! A gente se sente como um grão de areia perdido na imensidão. Convém lembrar que a Bíblia cita passagens diversas de profetas que foram meditar no deserto. Agora entendo o porquê dessa simbologia. É um local único! A ausência de vegetação, a aridez, a falta de chuvas, a temperatura incomum que varia do zero aos 40 graus num mesmo dia são alguns desafios a serem superados por aqueles que aqui vivem. Curiosamente, muitas civilizações se desenvolveram e sobreviveram durante milênios nessas paragens, enfrentando todas essas dificuldades. O povo tacamenho é peculiar nesse aspecto. Não consigo imaginar outra forma de sobreviver por aqui sem os recursos do pastoreio e da caça. Ainda não descobri como as populações locais conseguem água. As lagoas ficam muito longe, localizadas em altitudes acima dos 4000 m e são, geralmente, de água salobra. Chuva no Atacama só se vê raramente e quase nunca ultrapassa os 25 milímetros anuais. Em San Pedro não chove há meio século.
Ontem recebi um aviso de que precisava desocupar o quarto do hotel onde estava por conta da chegada de um grupo de europeus que já tinha reserva. A atendente do hotel pensou que nós iríamos apenas pernoitar quando nos cedeu os quartos. Diante das dificuldades de se encontrar vagas em outros hotéis, eu e Rosane migramos para o quarto do Paulo e estamos os 3 sob o mesmo teto. [Fotos na lagoa Miscanti, no Salar do Atacama e nos povoados de Socaire e Toconao (lhama)]


DIA 2o de outubro - sábado
Em S. Pedro do Atacama 2 - Hoje acordamos às 3 h da matina e às 4 h fomos de van conhecer os Gëiseres El Tátio, a 4300 m de altitude. Foram 2 h de viagem e, quando lá chegamos, fazia 7,5 graus negativos. Foi o pior frio que peguei na minha vida, até então. É bem cedo que se pode ver a pressäo da água vindo de debaixo da terra. Formam-se jatos de vapor de tamanhos variados, que podem superar os 30 m de altura. Por lá também havia uma piscina térmica, onde apenas os turistas europeus tiveram coragem de mergulhar. O choque térmico quando se sai da água näo é fácil de encarar. Vamos lá às novidades:
a) San Pedro é um lugar central do Atacama, mas muito longe de qualquer ponto turístico. É necessário se deslocar por muito tempo por estradas de rípio para ver as belezas do deserto. Por aqui a temperatura é peculiar, porque é muito quente de dia e muito fria de noite. Pelos arredores näo é difícil encontrar locais com 16 graus negativos. A cidade lembra os filmes de faroeste mexicano. Só a praça central tem calçamento e é também o único lugar onde se encontra sombra. Pelos arredores há muitos observatórios estelares, por conta do céu sem nuvens em 300 dias do ano. Existem também alguns vulcöes ativos que lançam fumaça branca constantemente no céu sempre azulado. Os preços por aqui säo exorbitantes! Chegamos a pagar 3,60 dólares numa garrafa de 1,5 litros de água durante o passeio turístico de ontem. Os passeios säo caros, mas se justifica pela grande distäncia nos deslocamentos.
b) Gêiseres - antes de chegar ao El Tátio subimos as montanhas por uma tal de Cuesta El Diablo, uma encosta com curvas fechadíssimas ao lado de abismos (só percebemos o cenário no caminho de volta). O fenömeno dos gëiseres é uma coisa que marca qualquer turista. A água sai da terra sob forte pressäo numa temperatura de 86 graus. Tem que ficar um pouco distante para evitar acidentes. Depois de 2 h pelo local seguimos para o Vado de Putana, uma espécie de vale onde corre um filete de água com muitas gramíneas e algas. Vimos lhamas e alpacas pelo caminho. Visitamos também o povoado de Machuca, onde vivem nativos pastores de lhama. Muitas fotos em todos os lugares.
c) A fauna tacamenha é outro ponto interessante que merece ser observado. Vimos um universo de pássaros incomuns: uma variedade razoável de patos, gaivotas, flamingos e de aves migratórias de todos os tamanhos e cores. No que concerne aos mamíferos, os mais comuns säo a lhama e a alpaca (domesticáveis) e os guanacos e as vicunhas (selvagens). Vimos também uma raposa belissima no meio do deserto (zorro), que parou elegantemente para que tirássemos algumas fotos dela.
d) A flora por aqui é outra coisa interessante. Ela é composta basicamente de variedade enorme de tufos (espécie da capim seco) bem baixos, gramíneas e algas multicores. Qualquer coisa por aqui acima de meio metro é obra de plantio ou de florestamento humano. [Fotos nos Gêiseres do El Tátio e de lhamas no povoado de Machuca]

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Quem sou eu

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Sou servidor do Ministério do Planejamento, motociclista há algumas décadas e membro do motoclube Águia Solitária, em Brasília. Também sou antropólogo e sociólogo por formação; escritor, violeiro e compositor por vocação; e estradeiro por opção. Criei esse blog para compartilhar, com quem demonstre interesse, minhas viagens de moto pelo Brasil e por outros países. Contato pelo email: flaviomcas@gmail.com