9 de nov de 2007

DIA 24 de outubro de 2007 - quarta-feira
DE SUSQUES A JOAQUIM V. GONZALES - (558 km rodados no dia) - 5514 km rodados desde Brasília, dos quais 1130 km em território chileno e 2544 km em território argentino - Por causa do frio intenso, não deu para sair cedo de Susques, cidade que nos marcou pela enorme quantidade de cachorros pelas ruas. Aliás, havia esquecido de comentar, em S. Pedro do Atacama o número de cães de rua é também impressionante. O apelido da cidade no Chile é San "Perro" do Atacama (lembro que perro = cachorro). Mas vamos adiante, dando continuidade às informações da viagem. Nosso encaminhamento para este dia era chegar a Salta, a maior cidade de todo o trajeto, e passar uma noite agradável por lá. Logo à frente passaríamos novamente pelos Caracoles em um trajeto de descida, muito mais adequado para produzir boas fotografias e filmagens. Paramos por diversas vezes em busca dos melhores ângulos. Passamos novamente por Purmamarca e S. S. Jujuy.
Várias pessoas pelo caminho nos deram a dica de ir de Jujuy para Salta por uma tal de Ruta 9, através da Sierra de la Cornisa, que possuia paisagem muito mais pitoresca do que a da auto-estrada. Assim o fizemos, felizes por variar um pouco os cenários da nossa volta. Não imaginávamos, contudo, que estávamos nos metendo na maior roubada de nossa aventura. Dos 86 km que separam as duas cidades, cerca da metade se localizava nas montanhas em uma estrada super sinuosa da largura de uma única pista, sem acostamento, com trânsito de ida-e-volta. Para piorar, não tínhamos nenhuma visão dos carros que vinham em sentido contrário. Por diversas vezes nos deparamos com caminhonetes no meio de uma curva e só conseguimos evitar um acidente grave porque estávamos de motocicleta. De automóvel nem pensar! A largura da pista não comportaria a passagem de dois veículos maiores simultaneamente. Não aconselho ninguém a passar por essa estrada. A "vista pitoresca" não compensa o esforço e o risco. Na verdade, essa pista seria estreita para uma ciclovia. Gastamos quase duas horas para atravessar esse trecho de 86 km. O estresse aflorava na pele e nos nervos. Saimos tão exaustos e mal humorados que resolvemos "saltar fora" de nossa programação de passar por Salta e seguir adiante.
Só havia recursos de hospedagem em Joaquim V. Gonzales e para lá seguimos. Chegamos um pouco antes do anoitecer. Cidadezinha linda e organizada, com pistas largas. Muito movimento em todos os cantos, principalmente na praça central da cidade. Ficamos hospedados no hotel Colonial e passamos uma noite muito agradável em um "Comedor", tomando cerveja Quilmes geladíssima e comendo uma parrilla de primeira. Aproveito a chance para quebrar alguns tabus:
a) Los hermanos do interior argentino são excessivamente simpáticos, muito diferente dos portenhos (de Buenos Aires). São humildes, gostam dos brasileiros, admiram os estradeiros e os motociclistas. Demonstraram, em todos os lugares, respeito e encanto por nossa ousadia de trilhar por terras tão distantes.
b) A cerveja QUILMES (curiosamente produzida pela Ambev) é muito melhor que a Skol. Por aqui ela é servida em temperatura muito mais baixa que no Brasil e isso pesou bastante na nossa avaliação.


DIA 25 de outubro de 2007
- quinta-feira
DE JOAQUIM V. GONZALES (Arg.) a POSADAS (Arg.) - (947 km rodados no dia) - 6461 km rodados desde Brasília, dos quais 1130 em território chileno e 3491 km em território argentino - Nesse dia encaramos o trecho mais longo desde que Rosane subiu na garupa da moto. Rodamos 947 km numa única empreitada. Fiquei com pena porque a almofada de gel que ela usava vazou em Corrientes e ela veio sentada no banco duro da moto por cerca de 350 km. Chegamos em Posadas exaustos, depois de atravessar o Chaco argentino sob um calor de 38 graus à sombra. Devo lembrar que o Chaco, como ecossistema, ocupa pelos menos 3 províncias argentinas: Salta, Santiago del Estero e o próprio Chaco (nome da província). Curiosamente, a capital do Chaco (província) não fica nesse ecossistema, porque localiza-se no frescor do trecho mais caudaloso do rio Paraná. Foi um trajeto duro de ser cumprido, por conta das retas infindas e da vegetação baixa, sem atrativos, que ladeava a pista. Foi difícil conter a vontade de acelerar muito. Em Posadas só deu tempo para localizar um hotel (Costa Azul, de preço salgado), comer um sanduiche e cair na cama. Amanhã adentraremos o Brasil por Foz do Iguaçu. (Fotos da igreja e no restaurante em Joaquin V. Gonzales)

DIAS 26 e 27 de outubro de 2007 - sexta-feira e sábado
DE POSADAS (Arg.) a FOZ DO IGUAÇU (Brasil) - (334 km rodados no dia) - 6795 km rodados desde Brasília, dos quais 1130 km em território chileno e 3800 km em território argentino -
De Posadas a Foz são apenas 310 km e fizemos este trajeto com muita calma, por ser o único trecho de toda a viagem onde a presença de caminhões é acentuada. Claro que não podíamos deixar de conhecer as Cataratas do lado argentino. Por lá é possivel ver com muita proximidade a famosa Garganta do Diabo, talvez o cenário mais bonito dentre todas as quedas d'água do Iguaçu. Delicioso sentir aquela bruma refrescante para rebater o calor de sei lá quantos graus (acho que embaixo da roupa de cordura estava mais de 50°).
No dia 27/10/2007, demos um pulinho em Ciudad del Leste (Paraguai) para comprar umas muambinhas para a meninada (incluindo 'nosotros'). Amanhã cedo vamos para Brasília e pretendemos chegar no dia 29, na segunda-feira, com 20 dias exatos de viagem. Voltaremos ainda envolvidos por uma atmosfera de paixão por nossa América. Foi muito emocionante conviver constantemente com os choques térmico e visual dos cenários que nos acolheram durante toda a aventura. Valeu muito a pena ter conduzido este projeto até o fim! Fora alguns contratempos miúdos, toda a viagem seguiu tranquila, em paz e com muita segurança.

Um comentário:

Thiago Skt Games disse...

É tudo q você havia me contado aqui na loja eu li..
Abraços Flavio!

Quem sou eu

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Sou servidor do Ministério do Planejamento, motociclista há algumas décadas e membro do motoclube Águia Solitária, em Brasília. Também sou antropólogo e sociólogo por formação; escritor, violeiro e compositor por vocação; e estradeiro por opção. Criei esse blog para compartilhar, com quem demonstre interesse, minhas viagens de moto pelo Brasil e por outros países. Contato pelo email: flaviomcas@gmail.com